O livro de Gênesis inicia-se com o relato da criação. Dois relatos diferentes, duas perspectivas diferentes, mas que nos ensinam a mesma coisa sobre o ser humano. Selecionei dois trechos para abordarmos com calma. Vejamos o primeiro.

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra”. Disse Deus: “Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês. E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes animais da terra, a todas as aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente ao chão”. E assim foi. E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom. Gênesis 1:26-31

Há três coisas que precisamos notar neste texto. Primeiro, que Deus criou o homem à sua imagem. Como já mencionei anteriormente aqui, isto significa que herdamos razão, emoção e volição – podemos analisar, sentir e decidir. E isso não foi dado só ao homem – a Bíblia insiste em dizer que Deus criou o homem E A MULHER à Sua imagem e semelhança. Em segundo lugar, que foi dada ao homem E À MULHER a ordem de se multiplicar E dominar a terra. O desejo de Deus é que JUNTOS o casal recém-criado pudesse cuidar da criação feita por Ele, gerenciando o cosmos, desenvolvendo e mantendo-o, guardando-o e cultivando-o, dominando-o e sujeitando-o quando necessário. Por último, Deus diz que esta foi sua melhor criação (havia ficado “muito” bom), diferente do restante da criação, que ele disse haver ficado bom (v.10,12,18,21,25). O ser humano, então, fecha a criação com chave de ouro, sendo um relacionamento precioso criado por Deus entre nós e Ele.

Mas a história continua… no capítulo 2, vemos uma história mais detalhada da criação do ser humano.

Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente (…) O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. (Gênesis 2.7,15)

Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda“. Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse. Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha. (Gênesis 2:18-25)

Há muitas coisas que podemos aprender com este texto, mas novamente ressalto as que serão mais importantes para a nossa discussão. Deus foi o primeiro a verbalizar como a solidão não era positiva para o homem. Ele havia criado o homem para estar em um relacionamento com Ele, e isso reflete a natureza relacional de Deus, tendo sempre coexistido em um pessoa trina. Aqui, Deus dá ao homem a bênção de se relacionar com alguém igual a si (assim como o Deus Pai para com Jesus e com o Espírito Santo). Mas quando Deus cria a mulher ele usa a palavra idônea (em algumas versões), como aqui traduzido, significa alguém que auxilie e corresponda. A ordem de dominar a terra foi dada ao dois para ser executada juntamente. A mulher corresponde ao homem perfeitamente, pois foi feita para ele, para cooperar (operar junto, lado a lado) no domínio da terra. O termo hebraico aqui é ezer kenegdow – auxiliadora idônea. Como diz Beeke (1), “a forma verbal desta palavra (ezer) significa basicamente auxiliar ou suprir aquilo de que um indivíduo não pode prover-se por si só.” Ou seja, ser um ezer, um ajudador, não tem a ver com subserviência, mas cooperação. Até Deus é chamado de ezer na Bíblia em relação ao ser humano. Você não acha que isso coloca Deus como subordinado ao homem, certo? Já a palavra idônea vem da palavra que em hebraico significa “oposto”, ou mais precisamente “de acordo com o oposto dele”. Em outras palavras, o foco aqui é que ela era um par apropriado. Eva é criada para complementá-lo.

Gosto de como Deus é cuidadoso. Ele não dá a Adão algo que ele não percebe que precisa. Do contrário, dá a Adão uma tarefa que o levará à compreensão de sua incompletude. Ao nomear os animais, ele percebe que todos tem uma companhia apropriada, menos ele (Gênesis 2.20). Tendo Adão percebido isto, Deus faz a primeira cirurgia, tirando um pedaço de Adão, que nada mais é do que uma forma de mostrar que Adão e Eva seriam feitos de maneira completamente correspondente – incluindo sua constituição mais básica.

Pense nessa poesia:

Da costela, Deus então “fez” — literalmente, em hebraico, “edificou” ou “construiu” uma mulher. Deus miraculosamente, meticulosamente, belamente, laboriosamente, formou uma mulher com Suas próprias mãos, fazendo-a cada pedacinho, tão especial quanto o homem que Ele havia criado antes. Existe algo particularmente belo, até mesmo poético, sobre esta criação. A mulher é feita para o homem e, por isso, poder-se-ia pensar nela como uma serva do homem. Gênesis porém, não diz isto. (2)

Se a mulher não lhe fosse auxiliadora e correspondente, seria impossível que eles completassem a tarefa. Por isso gosto de pensar que Deus fez a mulher a “parceira ideal”. E a resposta de Adão ao presente de Deus é suuuuuper romântica: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. (Gênesis 2:23). A palavra hebraica para homem aqui? Ish. Para mulher? Isha.

Interessante notar que até aqui o homem é chamado de Adão (do hebraico ha’adam, palavra neutra, “feito de barro”), ou seja, um ser feito de barro. Mas quando Deus cria Eva a partir de Adão, Ele chama Adão de Ish, ou homem, palavra masculina, e a Eva, Isha, palavra feminina. Ou seja, a humanidade é definida pelo relacionamento entre o homem e a mulher.

Juntos, então, homem e mulher cooperam, com suas diferentes características, para alcançar o propósito de exaltar e demonstrar a absoluta magnificência do Evangelho de Jesus Cristo e a glória de Deus. Ela o ajuda a fazer aquilo para que ambos foram criados: “De longe tragam os meus filhos, e dos confins da terra as minhas filhas; todo o que é chamado pelo meu nome, a quem criei para a minha glória, a quem formei e fiz“. (Isaías 43:6,7).

Há glória na masculinidade e glória na feminilidade. Quando nos deleitamos nisso e buscamos viver nossas vidas à luz da verdade de como fomos criados de maneira única, glorificamos a Deus da maneira única e singular para a qual fomos criados. A mulher desenvolve sua feminilidade para a glória de Deus. O homem desenvolve sua masculinidade para a glória de Deus. E, como veremos semana que vem, quando o homem e a mulher desenvolvem entre si um modo de se relacionar que realça a singularidade de sua criação, eles glorificam a Deus de maneira que não poderiam fazer sozinhos. E isto é lindo. Como diz Abigail Dodds:

“A glória feminina é apenas para a mulher, não porque homem e mulher não tem nada em comum (pelo contrário, temos tudo em comum por sermos carne da mesma carne, ossos dos mesmos ossos), mas porque nossa semelhança apenas faz sentido à luz do Deus Trino, que é distinto em três pessoas. Quando abandonamos nossa glória feminina em busca daquilo que é único ao homem, abandonamos a glória dada a nós por Deus; nos tornamos usurpadoras, insistindo persistentemente que nosso útero, nossa biologia, são irrelevantes, não valem de nada.” (5)

Sabe, meninas, Deus nos fez para sua glória. Ele não nos criou a partir do homem com uma mentalidade do tipo “deu na telha” ou “é o que tem pra hoje”. Fomos criadas com propósito de glorificar a Deus em um relacionamento que imita o relacionamento de Deus consigo mesmo, entre as três pessoas da Trindade. E isso é glorioso.

Não uma glória que se encerra em nós, mas uma glória que se propaga na glorificação de tudo o que foi dado a nós e que aponta em todas as coisas para o Cristo, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser (Hebreus 1.3). E à medida em que refletimos como um espelho a glória do Senhor, somos transformadas com glória cada vez maior. (2 Corintios 3.18).

Referencias:

(1)(2) Joel Beeke. A Criação da Mulher – Gênesis 2:18-25 e Efésios 5:20-33. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/antropologia_biblica/criacao_mulher.htm

(3)(4) Mary Kassian. Uniquely Female: The Scriptural Blueprint for Femininity. Disponível em: http://www.crosswalk.com/family/marriage/uniquely-female-the-scriptural-blueprint-for-femininity-11628682.html

(5) Abigail Dodds. The Beauty of Womanhood – Her Uniqueness Makes Her Essential. Disponível em: http://www.desiringgod.org/articles/the-beauty-of-womanhood