Nota do editor: Este artigo faz parte de uma série sobre o feminismo publicada toda quarta e quinta feira do mês de abril. Procuramos abordar os principais tópicos deste tão relevante assunto, no entanto, sabemos que não cobriremos todas as suas faces. Nosso desejo não é criar polêmica, mas sabemos que a Bíblia quase sempre nos coloca na contramão do mundo. Nosso objetivo nesta série é estudar o que a Bíblia tem a nos dizer sobre a mulher, seu papel e seu valor, enquanto olhamos para o feminismo e o comparamos com as verdades encontradas nas Escrituras. Responderemos perguntas como: O que é feminismo? O que ele advoga? Há quanto tempo ele existe? O que afirmamos quando dizemos ser “feministas”? O que a Bíblia tem a nos dizer sobre masculinidade e feminilidade? É possível ser cristã e feminista? O feminismo é o que diz ser? Se não é, então qual a alternativa bíblica para o feminismo?


Se eu te perguntasse como seria a mulher ideal, como você a descreveria? Pare para pensar por alguns segundos e faça uma lista mental… Quais adjetivos estariam inclusos em seus pensamentos: forte, inteligente, capaz, independente, poderosa, dona de si! Será que gentil, modesta, submissa, sábia ou amável fariam parte do seu conceito de feminilidade? Vivemos numa era na qual ideais feministas são o novo modo de pensar e, mesmo dentro da igreja, temos absorvidos conceitos sobre a mulher que não estão em concordância com os padrões bíblicos.

Há urgência em resgatar os valores de Deus para o homem, a mulher e a família. Há necessidade de pregar que a proposta bíblica é a vontade perfeita de Deus para a humanidade, e nela, tanto homem quanto mulher encontram o sentido de sua existência.

A Verdadeira Feminilidade 

Talvez você tenha ouvido muitas vezes que a Bíblia é negativa, opressora e limitante para as mulheres. E se, talvez, você concorda com tudo aquilo que dissemos, deve ter ficado desencorajada ao pensar que esta mulher “bíblica” do imaginário feminista (limitada e oprimida) é tudo o que resta – e você, com certeza, não quer sê-la! (NÓS TAMBÉM NÃO!) Então, qual a solução?

Distorções de valores e a impregnação do pensamento feminista têm invadido e enfraquecido vertentes da teologia. Concordamos com John Piper que uma teologia fraca gera mulheres fracas. Ele diz:

Uma teologia fraca não oferece às mulheres um deus grande o suficiente, forte o suficiente, sábio o suficiente, bom o suficiente para lidar com as realidades da vida de uma maneira que lhes permita honrar a Ele e ao Seu Filho o tempo todo. Ele não é grande o suficiente. Uma teologia fraca é contaminada por uma centralidade na mulher, ou como costumamos dizer, é centrada no ser humano. Uma teologia fraca não está fundamentada na rocha da Soberania de Deus. Ela não tem a estrutura de aço do grande propósito de Deus para a existência humana, incluindo o pior dela. (1)

E este é o propósito de Deus para nós, como já ensinamos aqui:

Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado. Efésios 1:4-6

Mas vamos dar um passo adiante, e mostrar que o centro da verdadeira feminilidade está no centro do propósito eterno de Deus. Precisamos nos revestir da Palavra de Deus que afirma que fomos escolhidas antes da fundação do mundo, fomos adotadas como filhas amadas para sermos santas e irrepreensíveis e vivermos para Sua glória (Ef 1.4-6). Esse propósito só é cumprido quando nos submetemos ao que a Bíblia afirma sobre ser mulher:

Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, pois somos membros do seu corpo. Efésios 5:22-30

É necessário ler este texto com humildade e confiança de que o próprio Deus nos mostrou que o cerne da verdadeira feminilidade está no centro de Seu propósito eterno. Homem e mulher são iguais em essência e dignidade, porém, diferentes em função; e o texto de Efésios mostra de maneira muito prática a diferença entre as funções. No entanto, o mais importante sobre este texto é entender que quando os papéis são devidamente cumpridos, eles testemunham ao mundo sobre o relacionamento de Deus com a Igreja. E isso vale para a relação entre os homens e as mulheres, sejam eles casados ou não, seja no contexto do lar, do trabalho, ou da igreja.

Se não estudarmos as Escrituras para saber sobre o nosso relacionamento com Deus, sobre o que Cristo fez por nós e aquilo que o Espírito Santo faz diariamente em nossos corações, e sobre a doutrina sólida do eterno propósito de Deus para nós, viveremos como mulheres fracas. E se nos agarrarmos a ideologias frívolas sobre a mulher, fundamentadas na areia movediça da cultura, no solo gélido e escorregadio da batalha por direitos, no corredor turbulento da centralidade da mulher, seremos mulheres ásperas, duras e rígidas.

Mas se nos firmarmos na solidez do propósito eterno de Deus para nós – nos tornar Suas filhas para o louvor da glória da Sua graça, por meio do sacrifício de Seu filho Jesus Cristo – podemos nos tornar verdadeiras mulheres. Fortes, mas gentis.

FORTES

Entrega-se com vontade ao seu trabalho; seus braços são fortes e vigorosos. 

Reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro. 

Fala com sabedoria e ensina com amor. (Pv 31.17,25,26)

Será que quando você pensa numa mulher cristã você imagina uma mulher calada, retraída, escondida atrás do marido? Ou talvez, uma mulher estressada e exausta com o cuidado da casa e dos filhos, sem poder exigir nada do marido? Submissão e respeito na nossa cabeça muitas vezes soam como omissão e subserviência. Mas não é esse o conceito bíblico de feminilidade. Veja o exemplo da mulher de Provérbios 31 e me diga se ela se parece com essa descrição acima:

  • ela tece e faz roupas (v.13,19,21,22);
  • cuida da própria casa, do marido e dos filhos (v.14,15,21,23);
  • administra o lar, e tem seu próprio negócio (v.15,16,18,24,27);
  • ela ainda acha tempo para servir aos necessitados (v.20).

Parece-lhe esta uma mulher fraca? Subserviente? Retraída? Omissa? De maneira nenhuma! Pelo contrário, vemos uma mulher forte, capaz, sábia e diligente. No entanto, vemos como se relaciona com o seu marido de maneira respeitosa e submissa e como isso reflete na vida dela:

  • seu marido tem plena confiança nela e nunca lhe falta coisa alguma; ela só lhe faz o bem, e nunca o mal, todos os dias da sua vida (v.11,12);
  • seu marido é respeitado na porta da cidade, onde toma assento entre as autoridades da sua terra (v.23);
  • seus filhos se levantam e a elogiam; seu marido também a elogia, dizendo: “Muitas mulheres são exemplares, mas você a todas supera” (v.28,29).

A força de uma mulher não está na luta para sua independência, mas na sua luta para submeter-se a Deus e à Sua vontade. Esta mulher, submissa ao seu marido, cuidadora de seus filhos e de seu lar, que tem seu próprio negócio e serve sua comunidade, compreendeu que é pelo temor ao Senhor que vem a sabedoria. O segredo de sua força está no fim do capítulo: “A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao Senhor será elogiada. Que ela receba a recompensa merecida, e as suas obras sejam elogiadas à porta da cidade” (v.30,31).

São incontáveis as mulheres cristãs que se tornaram mártires e missionárias, desenvolveram hospitais e praticaram a enfermagem, lideraram escolas, abrigos e hospitais para os segregados, assumiram posições de influência em suas comunidades, foram instrumentos em movimentos de melhora social como a luta contra a escravidão e as leis contra o trabalho infantil, e aquelas que se desenvolveram como pensadoras, artistas, escritoras e teólogas. Tais mulheres existem desde o primeiro século, por toda a idade média, a era vitoriana.

São mulheres que existem ainda hoje, lutando contra o abuso doméstico, clamando por leis mais justas contra as mutilações femininas, resgatando mulheres e crianças da escravidão sexual, construindo poços para que crianças possam ir para a escola em vez de carregarem água, e tantas outras coisas. São mulheres que batalham para promover a dignidade masculina e feminina, por um modo de viver equilibrado e bíblico que valorize o ser humano como portador da imagem divina. Todas são mulheres fortes.

Ser forte e lutar por estar causas não é um chamado feminista. Estas mulheres não estão correndo atrás da agenda feminista. Elas estão vivendo o propósito bíblico, obedecendo a ordem de Cristo de ir por todo o mundo, de resgatar mais do que a dignidade do corpo e de dar mais do que liberdade física. Essas mulheres estão ensinando ao mundo que o Deus que fez homem E mulher ama aos homens E às mulheres, estende salvação a homens E mulheres, se preocupa com homens E mulheres. E dá propósito a homens E mulheres. Elas estão proclamando a glória da Sua graça em suas palavras e com suas vidas. Fortes, mas também…

GENTIS

A beleza de vocês não deve estar nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e jóias de ouro ou roupas finas. Pelo contrário, esteja no ser interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranqüilo, o que é de grande valor para Deus. Pois era assim que também costumavam adornar-se as santas mulheres do passado, que colocavam a sua esperança em Deus. Elas se sujeitavam a seus maridos, como Sara, que obedecia a Abraão e lhe chamava senhor. Dela vocês serão filhas, se praticarem o bem e não derem lugar ao medo. (I Pedro 3.3-6)

A Bíblia é contundente em demonstrar que a beleza da mulher deve ser adornada do lado de dentro. A beleza que Deus exalta – e é essa que devemos buscar – encontra-se num coração moldado e transformado a cada dia pelo Espírito Santo. A passagem de Tito 2 também ensina que as mulheres devem ser reverentes, ter domínio próprio, ser capazes de ensinar outras mulheres e ser prudentes, puras, bondosas e submissas ao marido. Todas essas virtudes são as gentilezas que a Bíblia chama de “beleza feminina”.

Lembro-me de conhecer uma mulher muito especial. Todas as vezes em que eu conversava com ela, ela demonstrava uma plenitude tão evidente, uma felicidade e sabedoria tão aparentes… Suas palavras eram gentis, sua expressão era gentil. Parecia que ela sempre tinha algo a aprender com qualquer pessoa com quem conversasse, ela demonstrava tanta humildade quando, na verdade, eu sabia que era ela que tinha muito a ensinar. Toda vez que eu conversava com ela, sentia-me instigada. Esta mulher, perto dos seus 60 anos, é casada e tem um casamento muito feliz, tem seus três filhos casados, muitos netos e em tudo é possível ver a devoção e sujeição dela a Deus.

Uma mulher anônima em meio à multidão, sem uma grande carreira, sem grandes conquistas, apenas com uma vida dedicada ao ministério e a pessoas que nem sempre estavam dispostas a ouvi-la. Quando penso nas gentilezas descritas pela Palavra de Deus, olho para ela e penso que é possível e vale a pena. Sei que ela é pecadora, mas também sei (e é evidente) que sua sabedoria de vida consiste em temer ao Senhor e buscar submeter-se à vontade de Deus para ela como mulher.

É possível buscar um espírito manso e humilde, é possível se calar quando as palavras não forem edificantes, é possível não entrar numa roda de falatórios inúteis, é possível entender que submissão é plano de Deus para minha segurança e proteção, é possível considerar os outros superiores a mim, é possível doar-se a outros por amor. E toda essa gentileza não é sinônimo de fraqueza, mas expressão da força concedida pelo Espírito Santo à todas aquelas que, humildemente, submetem-se ao chamado de Deus para a verdadeira feminilidade.

Outra mulher digna de citação é Elisabeth Elliot, que foi missionária com os índios aucas no Equador e perdeu seu marido Jim para que estes fossem salvos (você pode ler mais aqui). Anos depois, Elisabeth voltou aos Estados Unidos e casou-se com Addison, professor em um seminário, e que morreu de câncer alguns anos depois. Ela casou-se novamente, com Lars, que cuidou dela até ela voltar para os braços de Deus.

Apesar de ser duplamente viúva e ter criado sua filha sozinha no meio dos índios aucas e quechuas como missionária, Elisabeth nunca endureceu. Seu espírito continuou doce e gentil, e tocava todos os que ela encontrava. Apesar de sua tenacidade, Elisabeth viveu e ensinou a verdadeira gentileza da feminilidade. Seus livros “Let me be a woman” [Deixe-me ser mulher] e “Passion and Purity” [Paixão e Pureza] me impactaram profundamente, e continuam a impactar vidas em todo o mundo. Ela diz:

Para mim, ser uma moça não é ser uma dondoca, insensata, impertinente, frívola e cheia de frescura, mas é ser gentil, graciosa, generosa e piedosa. Eu e você, se somos mulheres, temos o dom da feminilidade. Frequentemente é obscurecido, assim como a imagem de Deus é obscurecida em todos nós. Me encontro muitas vezes na posição desconfortável de ter que ensinar o óbvio, e mostrar exemplos de feminilidade para mulheres que quase que pedem desculpas por serem femininas, por agirem como mulheres. Devo lembrá-las que feminilidade não é uma maldição. Não é nem ao menos uma coisa trivial. É um dom, um dom divino, para ser aceito de mãos abertas e com gratidão a Deus. Porque, lembre-se, foi ideia dele. A masculinidade e a feminilidade na raça humana são presentes de Deus, e não deveria haver competição alguma entre eles. O filósofo russo Bergiath disse: “A ideia da emancipação feminina se baseia em uma profunda inimizade entre os sexos, em inveja e imitação”. No entanto, quanto mais femininas formos, mais masculinos os homens serão, e Deus será mais glorificado. Como costumo dizer: “Sejam mulheres, sejam apenas mulheres, sejam mulheres de verdade em obediência a Deus”.(2)

O privilégio de exercermos nossa feminilidade com força e gentileza é dom de Deus. Precisamos lutar, como uma contracultura em meio à nossa sociedade, pelos valores de Deus que dignificam a mulher. Temos que buscar essas virtudes pois elas refletem a vontade divina para nós. Vale a pena viver de acordo com o plano estabelecido pelo Senhor.

Por fim, é importante ressaltar uma coisa: somos mulher como você, falhas e pecadoras como você. Sabemos o que é ler Provérbios 31, Tito 2 e 1Pedro 3 e sentir-se completamente incapaz de viver essa realidade ou, talvez, nem saber por onde começar. As boas novas do Evangelho são que não estamos sozinhas, não lutamos sozinhas. Não é isso que Deus quer de nós. Temos da parte dEle o Espírito Santo que nos capacita e, mesmo quando falharmos, haverá Graça disponível para nos levantar e nos guiar sempre uma milha a mais.

Não permita que seu coração endureça, não desista diante dos obstáculos e nem se deixe tomar por ideais contrários ao plano divino. Seja forte, seja gentil e testemunhe ao mundo a vontade perfeita de Deus para a feminilidade.

Por Thais Urel e Lindsei Lansky

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Referências:

(1) John Piper. Disponível em: https://www.reviveourhearts.com/events/true-woman-08/ultimate-meaning-true-womanhood/transcript/

(2) Elisabeth Elliot. Let me be a Woman. Tyndale House, 1976.