Nota do editor: Este artigo inicia uma série sobre o feminismo que continuará toda quarta e quinta feira do mês de abril. Procuramos abordar os principais tópicos deste tão relevante assunto, no entanto, sabemos que não cobriremos todas as suas faces. Nosso desejo não é criar polêmica, mas sabemos que a Bíblia quase sempre nos coloca na contramão do mundo. Nosso objetivo nesta série é estudar o que a Bíblia tem a nos dizer sobre a mulher, seu papel e seu valor, enquanto olhamos para o feminismo e o comparamos com as verdades encontradas nas Escrituras. Responderemos perguntas como: O que é feminismo? O que ele advoga? Há quanto tempo ele existe? O que afirmamos quando dizemos ser “feministas”? O que a Bíblia tem a nos dizer sobre masculinidade e feminilidade? É possível ser cristã e feminista? O feminismo é o que diz ser? Se não é, então qual a alternativa bíblica para o feminismo?


Em uma de suas músicas mais famosas a cantora Beyoncé grita a plenos pulmões “Who run the world?”  A resposta? Girls! A música, usada frequentemente pelas feministas, resumidamente diz que os homens podem até pensar que estão no comando, mas nenhum deles é melhor do que as mulheres. E nenhum deles as pode diminuir porque quem manda no mundo são as garotas.

Mas será que são mesmo as garotas quem mandam neste mundo?

Se estudarmos bem o feminismo, veremos que ele nada mais é que uma teoria filosófica, uma doutrina, um sistema de princípios e ideias, como o -ismo no final da palavra indica. Isso significa que ele envolve muito mais do que o direito das mulheres, ou o direito ao aborto, ou o direito de votar, ou o direito de ter uma carreira. O feminismo é uma visão de mundo com suas próprias ideologias, valores e formas de pensar. Essa visão de mundo foi desenvolvida* durante 30 ou 40 anos (após a década de 1960), quando suas ideias foram propostas, desenvolvidas, promovidas e se tornaram aceitas na mentalidade coletiva social (apesar de que, se pararmos pra ver, seus princípios existem desde o Jardim do Éden…).

Hoje vivemos numa sociedade pós-feminista. Uma era em que a teoria se tornou mainstream. O feminismo é o modo novo de pensar, o modo “correto”, de acordo com a mídia e os livros. Ela deixou de ser defendida apenas por alguns teóricos para se tornar o modo como a população pensa. Deixou de ser radical para se tornar comum, e hoje está integrada à sociedade de forma indistinta. É dificílimo separar o que é feminista do que é o pensamento geral da população. O feminismo se tornou a norma. E, como o flúor disperso nas caixas d’água por todas as cidades, alcançando todas as casas, assim o feminismo se integrou aos nossos pensamentos.

Mary Kassian, professora de Estudos da Mulher no Southern Baptist Seminary, nos EUA, explica que, hoje em dia, as mulheres crescem pensando que a essência da feminilidade é o exercício do poder pessoal (incluindo o poder sexual). Elas são ensinadas a serem barulhentas, sexuais, agressivas, vulgares, rudes, independentes e exigentes. As mulheres estão sendo treinadas para valorizar educação, carreiras fortes e potencial de ganhos – e a desvalorizar o lar, o casamento e os filhos. Além disso, são incentivadas a serem iniciadoras e perseguidoras de relacionamentos com o sexo oposto. Elas esperam que os homens se conformem ao modo de pensar feminino e às expectativas femininas sobre como deve ser o homem. Obviamente, isso impacta grandemente o casamento e a vida familiar. Os relacionamentos entre homens e mulheres estão tensos. O casamento tem sido adiado, ou completamente descartado. E porque os ideais feministas sobre a feminilidade estão em oposição direta ao propósito de Deus para o homem e a mulher, aquilo que Ele os criou para ser, tem se tornado cada vez mais difícil fazer com que os relacionamentos funcionem. Nunca antes houve tantos divórcios, boa parte deles (e cada vez mais) iniciados pelas próprias mulheres.(1)

Não podemos mais achar que as mulheres da igreja têm o conceito bíblico de feminilidade firmado dentro de si. O feminismo de tal maneira desafiou e desconstruiu o plano de Deus, atacando o ideal judeu-cristão sobre masculinidade, feminilidade, relacionamentos, sexualidade, casamento e família, que a geração atual não tem mais em sua mente a verdade do plano de Deus para os gêneros e a moralidade, mesmo os cristãos dentro da igreja.

Se o discipulado no passado envolvia os pontos básicos de salvação e santificação, hoje é necessário ensinar o que são masculinidade e feminilidade bíblicas, qual o plano de Deus para os relacionamentos, para o casamento e para a igreja. Por isso, é necessário que nos dediquemos a compreender qual o propósito de Deus ao criar homem e mulher, pois só uma doutrina sólida poderá combater o massacre marital, relacional e sexual da mentalidade pós-feminista. E, como mulheres cristãs, devemos ser cautelosas para ter a mente de Cristo, não a mente do feminismo.

Para isso, vamos começar definindo o que acreditamos sobre masculinidade e feminilidade:

  1. Todos os indivíduos foram criados com igual dignidade e valor porque foram criados à imagem de Deus. (Gn 1.26,27)
  2. Todos os indivíduos devem ser tratados com respeito e dignidade sem importar gênero, cor, idade ou convicção política.
  3. Todos os indivíduos foram projetados pelo Criador, para o seu propósito (Nm 14.21).
  4. O Criador projetou dois gêneros com diferenças distintas para funcionar em papéis que são compatíveis e complementares (Gn 2.15-18).
  5. Diferenças de gêneros tornam a vida mais interessante e divertida. Elas foram criadas para ser celebradas, e não desprezadas.
  6. O papel designado pelo Criador para o marido NÃO inclui dominação, mas sim liderança servil e autoridade humilde (Ef 5.22-33).
  7. O papel designado pelo Criador para a esposa NÃO inclui frágil subserviência, mas submissão respeitável e inteligente à liderança de seu marido (Ef 5.22-33). (2)

John Piper costuma ensinar que, quando se trata de sexualidade, “a maior demonstração da Glória de Deus, a maior alegria dos relacionamentos humanos e os maiores frutos no ministério surgem quando as profundas diferenças entre homem e mulher são aceitas e celebradas como complemento umas das outras.” (3)

Ele ensina que a verdadeira masculinidade e a verdadeira feminilidade são derivadas do relacionamento entre Jesus Cristo e a igreja, como demonstrado em Efésios 5.22-33, onde Jesus (e o marido) possuem autoridade e a Igreja (e a esposa) respondem em submissão.

Assim, a definição de autoridade seria “o chamado divino do marido para assumir responsabilidade principal por liderança servil, proteção e provisão semelhantes às de Cristo”. E submissão seria “o chamado divino da esposa de honrar e afirmar a liderança de seu marido e ajudá-lo a exercê-la de acordo com os seus próprios dons.” E isso não se apresenta necessariamente da mesma maneira para todos os casais, nem devemos propor que o seja. No entanto, é assim que masculinidade e feminilidade se apresentam no casamento. (4) Homens aprendem como agir a partir de Cristo, assumindo a maior carga e a maior responsabilidade. Autoridade não é uma questão de direitos, mas uma questão de carga e de responsabilidade (os quais homens estão profundamente culpados de deixar de lado). Mulheres aprendem como agir a partir da Igreja, em sua respeitosa submissão e serviço.

Quando Deus planejou a história, Ele sacrificou seu Filho na cruz antes mesmo de nos criar (Ap. 13.8). Quando Ele criou o homem e a mulher, Ele já tinha em mente o relacionamento entre Cristo e a igreja, e por isso os projetou com esse propósito. Os papéis de homem e mulher não foram uma ideia secundária de Deus, a comparação entre Cristo-Igreja e Homem-Mulher não foi uma invenção de Paulo no século primeiro. Deus projetou o homem e a mulher como seres distintos, com características distintas, que se complementassem na obediência do mandato de Gênesis 2, dado a Adão e Eva, de dominar o mundo e multiplicar-se. John Piper afirma que:

“Quando Deus descreveu o ato glorioso do Seu Filho como o sacrifício de um marido por sua esposa, Ele estava nos dizendo por que  nos fez homem e mulher. Ele nos fez assim para que nossa feminilidade e masculinidade demonstrassem de modo mais completo a glória do Seu Filho em Seu relacionamento com Sua Noiva comprada por Seu sangue.” (5)

Ao tentar reduzir nossa feminilidade a questões físicas e funções biológicas e então determinar nosso papel na vida a partir de nossas competências, uma posição igualitarista não apenas diminui a razão de ser da nossa feminilidade, mas diminui a glória de Cristo em nossas vidas, porque “nossa personalidade feminina distinta é indispensável no propósito de Deus de demonstrar toda Sua glória.” Nossa feminilidade não é um acidente, mas um aspecto central do plano eterno de redenção da humanidade por Deus.

Se somos filhas de Deus, servas de Deus e queremos viver uma vida de obediência, devemos entender e observar qual é o projeto de Deus para nós como mulheres. Nosso gênero não foi determinado por sorte na hora da concepção nem é dependente das nossas escolhas enquanto crescemos. Nosso gênero foi habilmente planejado por Deus antes que nascêssemos. Fomos planejadas por Ele ainda no útero (Sl 139) de modo “assombrosamente maravilhoso”, como vimos na série “Quem Sou Eu?”. E parte do projeto de Deus é a nossa feminilidade.

Acredite que, se Deus faz tudo para o louvor da Sua Glória, nossa feminilidade foi feita para glorificá-lO de modo que não faríamos se ela não existisse. Isso significa que glorificamos mais a Deus quando vivemos a feminilidade bíblica projetada por Ele.

Kimberly Wagner diz que “quando rejeitamos o design do Criador para a masculinidade e a feminilidade, nós nos colocamos como nossa própria autoridade” (6). Mary Kassian complementa que, no feminismo, “em vez de nos curvarmos à autoridade de Deus, tomamos a autoridade em nossas próprias mãos.” (7) É como se disséssemos, “É assim que quero ser. É assim que quero que o mundo seja. É assim que quero que os homens sejam. É assim que quero que Deus seja.”

Mas como filhas que amam Seu Pai e compreendem que Ele é o Deus soberano que nos ama, protege e cuida, nós devemos buscar viver em submissão amorosa, sabendo que Sua liderança servil é o melhor para nós e, em obediência, replicando esse padrão em nossos relacionamentos.

Mary Friedman começou o movimento feminista nos Estados Unidos nos anos 60 fazendo a pergunta correta: “O que trará às mulheres maior alegria e realização pessoal?” O problema é que o feminismo entregou a resposta errada, muito longe da resposta dada pelo próprio Criador. Não há realização pessoal e felicidade, nem para o homem nem para a mulher, longe de um relacionamento pessoal com Jesus Cristo, muito menos em uma vida em discordância com o design específico de Deus para nossa para nosso gênero e sexualidade.

Antes de concluir, gostaria de dar uma palavra para nós, solteiras. Quase sempre, quando se fala do papel da mulher, ensina-se muito sobre o relacionamento dentro do casamento e, confesso, até mesmo eu me esqueço de falar sobre como isso se apresenta quando não estamos casadas.

Se Deus é mais glorificado no relacionamento homem-mulher, na representação do relacionamento de Cristo com a Igreja, será que eu não estou deixando de glorificar a Deus por estar solteira? Eu posso glorificar a Deus mesmo sem casar? Bem, se o próprio Paulo aconselha ficarmos solteiros em I Coríntios 7, acho que temos algumas razões para afirmar que sim.

Em primeiro lugar, ensinamos ao mundo que a família de Deus cresce por regeneração pela fé e não pela relação entre o homem e a mulher. Como moças solteiras que receberam esse presente  do Senhor (por mais que às vezes ele não pareça um presente), se vivermos esse dom com fé, contentamento e misericórdia e em serviço, mostraremos ao mundo que, em segundo lugar, o relacionamento permanente com Cristo é mais satisfatório do que qualquer outro relacionamento humano, inclusive o casamento, já que este é temporário (termina quando morrermos) e o relacionamento com Cristo é permanente (dura para sempre).

Por último, ao vivermos uma solteirice que exalta a Cristo, testemunhamos que o casamento aponta para essa realidade eterna permanente, Cristo e a Igreja, de maneira que o casamento não será mais necessário quando estivermos face a face com Cristo. Assim, mesmo que você não tenha, NESTA VIDA, um marido a quem honrar e se submeter, que a guiará em liderança humilde e servil, ainda assim você terá, PARA SEMPRE, um Cristo fiel, que Se humilhou em amor sacrificial para vir à Terra e servi-la, trazendo a você um relacionamento com o Pai mais satisfatório, ou seja, mais cheio de felicidade e realização pessoal do que qualquer outra coisa nesta vida, inclusive o casamento, possa lhe oferecer.

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Se você tem alguma dificuldade de ver como o complementarismo se apresenta na prática, sugiro que leia “Deus Criou o Ser Humano Homem e Mulher: O Que Significa Ser Complementarista?”, de John Piper.

Veja mais sobre Complementarismo e Igualitarismo, as duas posições discutidas dentro do cristianismo sobre papel do homem e da mulher, no artigo da CBMW – Conselho para Masculinidade e Feminilidade Bíblicos, que será publicado amanhã.

* PS: Quando digo que “esta visão de mundo foi desenvolvida pós década de 60”, não estou afirmando que o feminismo começou nesta época, mas que seus princípios se desenvolveram em uma visão de mundo por causa dos acontecimentos desta época. Como veremos nos próximos artigos, as ideias e proposições do feminismo se apresentam bem antes disso.


Referências:

(1) Mary Kassian. Disponível em: https://www.thegospelcoalition.org/article/mary-kassian-on-the-church-in-a-post-feminist-world. Você pode ler mais em seu blog Girls Gone Wise

(2)(6) Kimberly Wagner. Disponível em: https://www.reviveourhearts.com/true-woman/blog/define-your-own-reality/ 

(3) John Piper. Disponível em: http://www.desiringgod.org/messages/god-created-man-male-and-female-what-does-it-mean-to-be-complementarian?lang=pt

(4)(5) John Piper. Disponível em: https://www.reviveourhearts.com/events/true-woman-08/ultimate-meaning-true-womanhood/transcript/

(7) Mary Kassian. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KI8_e4smDeo/